Um país fora do tom (*)

As denúncias de irregularidades na Orquestra Sinfônica Brasileira, relativas à aplicação de verbas do Ministério da Cultura, são evidências preocupantes do alto grau de contaminação do setor público pelos vírus da corrupção, negligência ou incompetência. Os três são igualmente danosos ao erário público e à sociedade, consumindo parcela significativa dos impostos pagos pelos brasileiros.

Em contrapartida, não há dinheiro para prioridades. Em todos os segmentos dos organismos estatais parece haver problemas decorrentes da falta de verbas. Alguns exemplos: atraso no pagamento das obras do Programa Nacional do Livro Didático (PNLB), prejudicando o mercado editorial e a indústria gráfica; atendimento médico-hospitalar precário; falta de recursos e greve nas universidades federais; suspensão do Exame Nacional de Alfabetização (ANA) e do Enade para os alunos do primeiro ano das universidades; dificuldades no Financiamento Estudantil (FIES) e no ProUni (programa federal de bolsas de estudo); crise de água em São Paulo; descontrole do preço da energia elétrica; elevada taxa de criminalidade.

Percebe-se que o grande guarda-chuva da crise fiscal do governo está cheio de goteiras, que vão respingando nos estados e municípios, criando uma corrente de inadimplência, paralisando as máquinas administrativas e fragilizando o caixa dos fornecedores da iniciativa privada. Para estes, principalmente os que participaram de concorrências lícitas, que não pagaram propina, não têm caixa dois e contas em dólar nos paraísos fiscais, o calote estatal é muito danoso. É um dos fatores de retroalimentação da crise.

Como se não bastasse, há toda uma rede de estruturas permeadas pela corrupção. Este vício cultural de alta capilaridade jorra no petrolão (incluindo os desvios no atacado de bilhões de reais e o varejinho do pixuleco), corre pelos trilhos do metrô paulista, passa pelo escândalo das propinas na Receita Federal e culmina com as denúncias relativas à Orquestra Sinfônica Brasileira.

No cenário nacional, somam-se a condução temerária de políticas públicas, a começar pela gestão da economia e irresponsabilidade fiscal no ano eleitoral de 2014, e a improbidade enraizada nas engrenagens do Estado. Os dois problemas, agravados pela crise política, mergulham o Brasil em uma das mais difíceis turbulências de sua história e, com certeza, a mais aguda nesses 30 anos do regime democrático iniciado em 1985.

A conjuntura exige um posicionamento firme, sereno e convincente por parte da presidente Dilma Rousseff. Por isso, foi decepcionante para todos os brasileiros ouvi-la dizer que subestimou a crise e que não reconheceu em tempo a sua gravidade, postergando as medidas de contenção. Ficou no ar um incômodo ceticismo quanto ao discurso do “Sonho Brasil”, proferido em toda a campanha eleitoral de 2014, e, de quebra, perdemos o grau de investimento com o rebaixamento da nota de crédito do País.

Como a Orquestra Sinfônica Brasileira, que também parece ter desafinado na ética, nossos políticos e lideranças, com honrosas exceções, perderam o tom. Sem compasso e harmonia, semeiam o descrédito e dificultam a solução da crise. É hora de exercitar o liberalismo em sua mais pura acepção, trabalhando com foco na liberdade dos mercados. Como não se pode contar com o Estado para fomentar a economia, é preciso que prevaleça, mais uma vez, a capacidade de superação dos setores produtivos. Mudanças positivas são sempre possíveis! Nesse sentido, é grande o empenho da indústria gráfica, com suas 20 mil empresas e 200 mil trabalhadores, de contribuir, ao lado de toda a sociedade, para a retomada do crescimento.

*Levi Ceregato é o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf Nacional).

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